Sustentabilidade como infraestrutura do novo crédito rural - Produzindo Certo
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Sustentabilidade como infraestrutura do novo crédito rural

Para conduzi-las, sugeri imaginarem o seguinte quadro: dois produtores com resultados e balanços financeiros semelhantes chegam à instituição em busca de recursos para financiar sua produção. Hoje, é possível que sejam vistos de forma também semelhante. Mas será assim dentro de dez anos?

Possivelmente não. Mais do que os números das informações financeiras, eles serão analisados (e diferenciados) por outras informações sobre suas propriedades e a forma como produzem

Não estamos falando de uma mudança distante, mas de um movimento em curso. Estamos falando de o produtor demonstrar que produz bem, cumpre requisitos, evolui tecnicamente e merece condições melhores – e da infraestrutura necessária para que isso aconteça.

A análise de risco está sendo transformada – e quem não estiver atento a isso pagará mais caro pelo crédito. Os números do balanço ainda serão relevantes, mas o banco vai querer saber como o produtor lida com clima, se está em conformidade, se consegue comprovar o que faz, se evolui ou piora ao longo do tempo.
Até algum tempo atrás isso era chamado de agenda ambiental. Hoje, é qualidade de risco.

Para quem decide limites, taxas, prazos, garantias e seguros relacionados a um crédito, essa informação se tornará crítica. Para quem o pleiteia, pode significar valor.
Não se trata de um capricho a mais dos bancos para dificultar a concessão de financiamentos. Esse movimento é empurrado por quatro forças, que estão transformando sustentabilidade em condição de acesso – e não apenas um diferencial.

A primeira dessas forças é o clima. O produtor está lidando com calor, seca, chuva fora de época, novas pragas e maior incerteza. A segunda força, os mercados. Compradores globais e nacionais querem mais comprovação: origem, desmatamento, emissões, práticas e rastreabilidade. A terceira é regulação: regras ambientais, trabalhistas, fundiárias e comerciais estão mais conectadas ao acesso a mercado e capital.  E, fechando a lista, a tecnologia. Satélites, IA, mapas, dados e monitoramento remoto deixam de ser acessório para virar infraestrutura básica na gestão e nas demonstrações das propriedades rurais.

Quando essas quatro forças se juntam, sustentabilidade deixa de ser um tema separado. Ela entra no coração da análise de risco.

Eis a grande virada, a que assistimos ao vivo e em tempo real: a sustentabilidade é cada vez menos tratada como prêmio para quem faz algo a mais. Ela está se tornando ser condição de acesso – acesso a mercado, acesso a cadeias globais, acesso a capital e, em muitos casos, acesso a seguro.

Isso muda a lógica para quem toma e concede crédito. O produtor que comprova boas práticas não está apenas “fazendo ESG”. Ele está reduzindo risco. Já aquele produtor que não consegue comprovar, com dados verificáveis, a atuação dentro de protocolos nesse sentido pode enfrentar barreiras crescentes, mesmo que produza bem.

Ou seja, a prática de campo virou variável financeira, que passou a fazer parte objetiva dos critérios de avaliação e liberação de recursos reconhecidos por instituições de diferentes níveis, estatais e privadas.

O departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), por exemplo, está usando dinheiro público para tirar risco da mesa e destravar capital privado. Na prática, oferece subsídios com endereço certo – as propriedades que atuam dentro do modelo de agricultura regenerativa.

Já o Banco Central Europeu colocou indicadores climáticos, como o calor extremo, no seu modelo de teste de estresse para avaliação do risco de crédito. Assim, ele está dizendo, em linguagem de regulador, que clima é risco de balanço. Os bancos, por consequência, deixam de perguntar “qual é a nossa agenda ambiental?” para se perguntar: “quanto da nossa carteira está exposto a quê — e nós sabemos responder isso hoje?”

Outro exemplo importante é o da FAIRR, rede global de investidores institucionais — fundos de pensão, gestoras, seguradoras — que avalia risco no setor de alimentos, ranqueia as grandes empresas por exposição climática, água, desmatamento e rastreabilidade, e usa isso na decisão de investir.

Não é ONG nem selo. É investidor olhando sua carteira. E enviando ao mercado a mensagem de que intenção não é mais o que conta, mas números auditáveis.
Reparem, agora, na composição: um governo pondo dinheiro, um regulador colocando regra e um investidor estabelecendo preço.

Quando esses três agentes econômicos andam na mesma direção, o que era tendência e vira condição de mercado, com um raciocínio direto e claro: calor extremo mexe na produção, produção mexe em inadimplência, inadimplência mexe na estabilidade do sistema.

Não tem nada de ambiental nessa lógica. Isso é análise de risco e chega no comitê de crédito antes de chegar na área de sustentabilidade.

A prática regenerativa

É essa premissa que faz da agricultura regenerativa um dos temas que mais vai crescer nos próximos anos, saindo do campo conceitual para o prático, sem escalas.
Produção regenerativa não vai apenas evitar danos. Vai melhorar a base produtiva da propriedade. Falar de solo coberto, matéria orgânica, biodiversidade funcional, integração de sistemas, melhor infiltração de água e menor dependência de insumos externos, é falar de resiliência. E resiliência é uma palavra-chave para crédito.

Uma fazenda mais resiliente tende a lidar melhor com estresse climático, oscilações de custo e pressão de mercado. Isso não elimina o risco, mas muda a qualidade do risco. E é por isso que esse tema interessa diretamente a bancos e seguradoras.

Plantio direto e cobertura ajudam a proteger o solo, conservar umidade e reduzir erosão. Integração lavoura-pecuária, quando bem desenhada, melhora uso da terra, produtividade e ciclagem de nutrientes. Manejo de insumos com mais precisão reduz desperdício e pode reduzir custo e emissão.

Mas o ponto central para crédito é outro: evidências. Não basta dizer que a propriedade utiliza boas práticas. É preciso comprovar. Fotos georreferenciadas, mapas, análises de solo, histórico, indicadores produtivos e socioambientais começam a formar um dossiê vivo da fazenda, base para transformar prática agrícola em leitura de risco.

Medir é o começo da infraestrutura de mercado, transformando ativos da natureza em valor econômico.

E não se trará de uma novidade na evolução dos sistemas de avaliação de crédito.  O Cadastro Positivo é um bom exemplo de como as transformações acontecem. Antes de ele ser instituído, o bom pagador financiava o mau pagador. Não porque o banco fosse ingênuo, mas porque não tinha como distinguir os dois. A informação existia, espalhada, cada instituição com o seu pedaço.

No dia em que ela foi padronizada e virou consultável, mudou preço, mudou limite, mudou quem tem acesso a crédito no Brasil. E ninguém chama isso de agenda social — chamam de infraestrutura de crédito.

O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é o exemplo mais próximo no universo do agro – e é interessante porque não nasceu com esse objetivo, mas como obrigação ambiental, mais uma burocracia, na visão de muitos na época.

Mas no momento em que a propriedade passou a ter polígono, matrícula e histórico num lugar só, ele ganhou nova utilidade. Tornou-se um pré-requisito para tomar crédito rural: hoje ninguém aprova operação sem olhar o CAR.

Dessa forma, a exigência ambiental virou infraestrutura financeira sem que ninguém anunciasse. E o caminho é sempre o mesmo — demonstração financeira padronizada, agências de rating, CAR, Cadastro Positivo: existe algo de valor, alguém cria uma métrica confiável, ela vira linguagem comum, a linguagem gera confiança, a confiança cria mercado e o mercado destrava capital.

A informação socioambiental do agro está no começo dessa fila. Ela existe, mas ainda é artesanal: cada comprador com a sua planilha, cada banco com o seu checklist, cada certificadora com a sua régua. O produtor responde a mesma pergunta cinco vezes de cinco maneiras diferentes.

A agricultura regenerativa está exatamente nesse ponto da história. Os ativos já existem — solo, água, área conservada, resiliência. Eles estão sendo produzidos todo dia, dentro da porteira. O que falta é a infraestrutura que conecta esses ativos ao mercado.

A resiliência é mensurável

A palavra resiliência às vezes parece abstrata, mas ela pode ser medida por sinais concretos e objetivos. Qual é a condição do solo? A propriedade conserva áreas sensíveis? Tem histórico de produtividade estável? Está em conformidade ambiental e trabalhista? O produtor registra práticas e evoluções? Há redução de emissões ou melhoria de indicadores?

Quando esses dados entram em uma análise, o crédito pode ficar mais inteligente. O banco passa a diferenciar produtores que parecem iguais do ponto de vista financeiro, mas são muito diferentes em gestão, risco climático e capacidade de adaptação.

Essa é uma das grandes mudanças do agro do futuro: dados de campo passam a complementar a análise financeira. Trabalho com agricultura regenerativa há quase vinte anos. Passei a maior parte desse tempo ouvindo duas perguntas. A primeira era “isso funciona?”. A resposta é: funciona. Tem fazenda com anos de dados mostrando solo melhor, água infiltrando melhor, produtividade mais estável.

A segunda era “quem vai pagar por isso?”. É uma pergunta que sempre me incomodou, porque ela assume que é conta de alguém – do produtor, do comprador, do governo, de um fundo lá fora –, como se fosse despesa a ser rateada.

Só que não é despesa. É risco sendo reduzido. E quem captura benefício de risco menor não é uma pessoa só: é o produtor, é o comprador, é o banco, é a seguradora. Todo mundo nessa cadeia ganha alguma coisa quando a propriedade fica mais previsível.

Por isso, a pergunta que interessa hoje é outra — e ela é no plural: “como cada um de nós, do lugar onde está, ajuda a construir isso?”

Para nós, produtores e a Produzindo Certo, é produzir e mensurar dados confiáveis do campo. Para o comprador, é reconhecer na compra. Para o mercado financeiro: usar essa informação para decidir e precificar melhor.

O valor já está lá. O produtor já está criando. O que falta é o outro lado do balcão.

O capital existe; a ponte ainda é frágil

E aí surge outra pergunta óbvia: se do outro lado do balcão está o dinheiro, ele existe? Existe e isso torna a conversa interessante.

Ao olharmos para capital climático, capital de impacto e programas como Eco Invest, vemos que o problema não é simplesmente falta de dinheiro. Existem recursos buscando projetos sustentáveis, recuperação de áreas degradadas, agricultura de baixo carbono e inovação.

O gargalo está na ponte. De um lado, o capital exige comprovação, escala, governança e monitoramento. Do outro, o produtor muitas vezes precisa de documentação organizada, plano técnico, indicadores, capacidade de gestão e suporte para cumprir as condições.

É aqui que instituições financeiras podem ter um papel estratégico. Não apenas conceder crédito, mas ajudar a estruturar o caminho para que o produtor esteja pronto para receber o crédito certo, no momento certo, sem ser empurrado para um endividamento inadequado.

Acredito que, em 2036, o crédito agrícola será muito menos estático. Hoje, muitas análises ainda são fotografias: cadastro, garantias, histórico e uma decisão. No futuro, o crédito tende a ser um relacionamento contínuo com a propriedade.

Primeiro, teremos cadastros vivos, integrando dados cadastrais, geoespaciais e produtivos. Depois, diagnósticos de risco mais completos, considerando clima, solo, conformidade, operação e gestão. Em terceiro lugar, estão os planos de evolução: o crédito pode financiar a transição, desde que as metas sejam realistas. E a seguir, monitoramento contínuo e condições dinâmicas.

Produtores que comprovam menor risco e melhor evolução poderão acessar melhores limites, preços e seguros. Isso é bom para o produtor e para o banco.

Cinco provocações para o mercado financeiro.

Ao final da palestra aos executivos do banco, fiz uma série de provocações calcadas justamente na transformação que está em curso. E as ordenei, propositalmente, da mais fácil para a mais difícil.

A primeira é a mais barata: transformar monitoramento em inteligência de crédito. Muitos bancos já compram dados socioambientais de diversas fontes — e os usam só para não tomarem multas. Assim, enxergam isso como custo de compliance. A mesma informação, olhada pela mesa de crédito, é insumo de decisão. Ou seja, eles não precisam de um novo sistema. Precisam que o dado chegue em quem decide, e não só em quem audita.

A segunda é preparar produtor para as linhas verdes. E aí, um exemplo claro é o Eco Invest, programa governamental para financiar a restauração de áreas degradadas. Os bancos comprometeram cerca de R$ 30 bilhões e, pelas regras do leilão, precisam desembolsar 25% desse valor — R$ 7,5 bilhões — até dezembro de 2026.

De outubro de 2025 até junho de 2026, entretanto, as liberações somavam apenas pouco mais de um quinto da meta, cerca de R$ 1,7 bilhão.

O gargalo não é capital. É enquadramento: o manual operacional do programa já está na terceira versão, exige comprovação técnica de degradação (com Prodes e laudos para contestar falsos positivos) e passa por avaliação independente (SPO). O dinheiro está lá e tem prazo. Quem chega com dossiê organizado passa. Isso é originação qualificada, e hoje há uma enorme oportunidade sendo deixada sobre a mesa.

A terceira é financiar a transição, não só a safra. O custeio financia o ciclo. A transição financia a capacidade produtiva do ciclo seguinte. Exige prazo mais longo e uma métrica de acompanhamento — mas é o que muda a qualidade da carteira lá na frente.

A quarta é integrar crédito, seguro e assistência técnica. Hoje o produtor recebe isso em três conversas separadas, muitas vezes com três interlocutores diferentes. Junto, vira produto. Separado, vira só oferta.

E a quinta é a mais difícil: conectar a ambição do banco com a ponta. Meta corporativa que não chega na fazenda vira relatório bonito e nada mais.

Nenhuma dessas exige inventar um banco novo. Todas exigem usar melhor o dado que já chega do campo.

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Autora: Aline Locks

Artigo originalmente publicado no LinkedIn