Plano Quinquenal: o recado chinês não é só sobre volume - Produzindo Certo
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Plano Quinquenal: o recado chinês não é só sobre volume

Quando o Conselho de Estado chinês publicou, em junho passado, o documento que detalha a política agrícola do seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), a leitura imediata do mercado foi de aritmética.

A China indica no documento que pretende elevar sua capacidade de produção de grãos de 695 para 725 milhões de toneladas até 2030, um programa de acréscimo de 30 milhões de toneladas. Isso é mais que o dobro da produção brasileira de grãos, como resumiu Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper Agro Global, em análise publicada pela Folha de S.Paulo.

O número impressiona e preocupa quem tem como um dos principais ítens de sua pauta exportadora os grãos enviados para a China. Mas fixar o olhar apenas no volume é perder o recado principal.

Lido com atenção, o plano revela uma intenção que vai muito além de produzir mais alimentos. A decisão deliberada dos chineses é reduzir vulnerabilidades e construir uma agricultura mais eficiente, mais tecnológica e mais resiliente.

A segurança antes do volume

É justamente essa visão de qualidade do planejamento, não a da quantidade da produção, que merece a reflexão do agro brasileiro.

A aprovação do plano pelo Congresso Nacional do Povo, em março, e a tradução operacional feita pelo Ministério da Agricultura chinês em junho deixam claro o enquadramento: a segurança alimentar foi elevada à mesma categoria estratégica da segurança energética e financeira.

Essa estratégia está incluída dentro de uma doutrina que Pequim chama de “Alimentação Expandida”, que propõe a produção de proteína e calorias por todas as vias possíveis, da lavoura ao laboratório. Um dos seus objetivos declarado é reverter um déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões, segundo levantamento da Folha.

Como ponto de partida nesse sentido, a China reconhece que a autossuficiência absoluta é impossível. O país tem apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população.

O que busca, então, não é se fechar, mas construir o que o próprio documento chama de “dependência segura”, diversificando fornecedores, substituindo o que é substituível e reduzindo a exposição a qualquer parceiro único.

Um relatório do Serviço Agrícola Exterior do USDA traz uma análise direta sobre o plano. No documento, diz que se trata de uma mudança de um “período de transição” para uma fase de modernização sistêmica, com a ambição declarada de ser uma potência agrícola até 2035 e com a meta explícita de diversificar importações e cultivar empresas domésticas competitivas internacionalmente.

Produzir mais, portanto, é o efeito. Produzir com menos risco é a causa.

Semente, o novo semicondutor

Os chineses tratam o segmento com a mesma seriedade estratégica que dedica aos semicondutores, como registrou a Folha, tendo a tecnologia de sementes como ponto de partida.

As metas são quantificadas e, segundo elas, o país pretende elevar a autossuficiência em recursos genéticos centrais de 81% para 85% até 2030, com investimentos em edição gênica, biomanufatura e variedades geneticamente modificadas locais de milho e soja já aprovadas para comercialização, projetando ganhos de rendimento por hectare entre 6% e 13%.

Para quem acompanha o mercado, o significado fica evidente. A China está desenvolvendo, com tecnologia própria, sementes mais apropriadas à produção doméstica de commodities como a soja, exatamente o produto em que o Brasil é o maior fornecedor do mundo.

Em entrevista recente ao AgFeed, após uma de suas muitas indas à China nos últimos anos, o ex-chefe da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, avaliou o plano chinês como factível em função dos investimentos maciços em ciência e tecnologia.

Segundo ele, os aportes chegam a 2,8% do PIB, enquanto o Brasil investe 1,2%. Com isso, hoje a China é o país que mais publica estudos e artigos na área de genética.
“Até 10 anos atrás, se fizesse uma busca no Google Scholar, a cada 10 artigos, 70% eram autores americanos, europeus, um ou outro chinês. Agora, se fizer esse exercício, buscando só CRISPR, por exemplo, que é a tecnologia mais recente de edição gênica, de cada 10 artigos, muito provavelmente 8 serão chineses”.

De acordo com Nepomuceno, a China já passou os Estados Unidos no número de pedidos de patentes na área de genética.

O plano de cultivo divulgado em setembro pelo Ministério da Agricultura chinês fala em consolidar a capacidade de produção de soja, oleaginosas, algodão e cana-de-açúcar, mantendo o “piso de autossuficiência básica em grãos e segurança absoluta em alimentos básicos”, conforme o governo chinês

Se essa engenharia genética doméstica avançar no ritmo planejado, parte da demanda que hoje sustenta o superávit agrícola brasileiro pode simplesmente deixar de existir — não por decisão comercial, mas por decisão tecnológica.

A projeção central citada pela Folha dá dimensão ao risco. A demanda chinesa por importação de soja pode cair 25% até 2030, um corte de 23,5 milhões de toneladas, quase um terço de tudo o que o Brasil exportou para a China em 2024.

E, outra frente, o país tem estimulado a reformulação das rações animais, com a inclusão de farelo de soja caindo de 14,5% para menos de 10% até 2030. A maior produtora de suínos do mundo, a Muyuan Foods, já opera com apenas 5,7% de inclusão, poupando 31 kg de grão por animal.

A longo prazo, o país projeta ser exportador líquido de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos até 2040. Ou seja, o comprador de hoje quer virar concorrente de amanhã.

O que o Brasil pode — e deve — controlar

O detalhamento do plano feito pelo Centro Agrícola Sino-Germânico (DCZ) organiza as metas em uma tabela que deveria ser leitura obrigatória em Brasília e em todas as principais fazendas do país: contribuição da ciência e tecnologia para a agricultura subindo de 64% para 67%; mecanização das principais culturas de 76,7% para acima de 80%; frota de mais de 350 mil drones agrícolas; tratores de alta potência acima de 400 cv; índice de desenvolvimento agrícola verde de 79,5 para 83.

A síntese do documento aparece em uma frase que resume tudo: a prioridade não é mais simplesmente “produzir mais”, mas “produzir mais com melhor terra, melhores sementes, melhores máquinas, melhor controle de doenças e logística mais forte”.

É esse o recado. Em um cenário de incertezas climáticas e comerciais, produzir muito continuará sendo importante. Mas conseguir produzir bem, de forma consistente e com riscos controlados, poderá fazer toda a diferença entre manter e perder posição no mercado global.

Aqui está a parte que não deve gerar pânico, mas decisão. Nós não controlamos as prioridades dos compradores internacionais. A China pode decidir substituir farelo de soja por proteínas alternativas, pode aprovar variedades transgênicas locais, pode exigir, amanhã, rastreabilidade total e produtos livres de desmatamento, alinhando-se aos padrões europeus, como aponta a análise da Systemiq sobre a estratégia alimentar chinesa.

Nenhuma entidade, nenhum ministério e nenhum plano nacional brasileiro impede que um comprador redefina suas prioridades. O que podemos controlar é o outro lado da equação: a eficiência, a resiliência e a confiabilidade da nossa produção.

É exatamente nesse ponto que o planejamento chinês oferece um ponto de partida para refletirmos sobre a segurança produtiva brasileira. A China planeja melhoria de solos, irrigação, mecanização e crédito direcionado. O Brasil, que já é líder mundial em produtividade tropical, tem na sua frente a tarefa de transformar essa vantagem natural em vantagem sistêmica, com solo saudável, gestão hídrica, manejo integrado, dados e rastreabilidade.

Nesse sentido, a aposta em sistemas mais resilientes deixa de ser pauta de marketing e passa a ser política econômica. Práticas de agricultura regenerativa, como rotação de culturas, cobertura do solo, integração lavoura-pecuária-floresta, manejo do carbono, se transformam, assim, em um seguro contra a variabilidade climática e uma credencial diante dos mercados que passam a exigir comprovação, não declaração.

O caminho existe e está sendo trilhado, mas talvez sem o sentido estratégico que merece. Um relatório da FAIRR citado pelo Portal Produzindo Certo observa que, na agricultura regenerativa, “apenas práticas e hectares já não bastam”, o que vale, daqui para frente, é resultado mensurável.

A pergunta que fica

O 15º Plano Quinquenal chinês não é um ultimato ao Brasil. É, sim, um espelho. Ele mostra o que significa tratar agricultura como segurança nacional, com metas quantificadas, tecnologia como motor, risco como variável de gestão e resiliência como investimento de Estado.

O Brasil tem terra, clima, ciência e um setor produtivo que se reinventa a cada safra. O que talvez nos falte é exatamente o que o plano chinês tem de sobra: a percepção de urgência.

Fica, então, a reflexão que deveria pautar o debate no agro brasileiro nos próximos cinco anos: Estamos apenas nos preparando para atender à demanda mundial ou construindo uma agricultura capaz de continuar competitiva diante das transformações globais?

A resposta a essa pergunta não estará apenas nos volumes que produziremos em 2030. Estará também na qualidade, na consistência e na confiabilidade com que os produzirmos.