
“Há uma história importante para contar aqui no projeto da Produzindo Certo”, diz Andy Jarvis, diretor para o Futuro da Alimentação do Bezos Earth Fund. E essa história tem nome: Valorizar para Transformar.
Criada para estimular a pecuária sustentável no Pará, a iniciativa reúne a Produzindo Certo, responsável pela assistência técnica e pelo diagnóstico socioambiental das propriedades, e a Aliança da Terra, que atua na mobilização local e nas ações de prevenção e manejo integrado do fogo. O projeto conta com financiamento do Bezos Earth Fund.
A meta é atingir 300 propriedades rurais distribuídas em 43 municípios do Pará, oferecendo assistência técnica e diagnósticos socioambientais para apoiar a melhoria contínua da produção pecuária.
Uma nova forma de enxergar a pecuária
A história fica ainda mais interessante quando contada pelos próprios produtores impactados pela iniciativa.
No início, a mudança de mentalidade pedia tempo, como lembra Maria Oenice Xavier, presidente da Associação dos Produtores Rurais da Colônia Alto Coraci.
“Logo quando começou a falar sobre a preservação, para nós, que temos a pecuária, estávamos achando muito difícil. Como é que a gente vai criar sem desmatar, sem cortar?”
O avanço do projeto, porém, começou a mostrar um caminho novo. “Com o pasto rotacionado, a gente vê que é possível criar um gado de qualidade sem desmatar”, conta Maria Oenice.
Paulo Costa, head de pecuária da Produzindo Certo, explica o espírito do projeto:
“O Valorizar para Transformar vem para o Pará estimular a pecuária sustentável.”
Aliando combate aos incêndios, dados, protocolos de boas práticas, acompanhamento do rebanho e respeito à comunidade local, a Produzindo Certo calça a botina e vai ao pasto trabalhar lado a lado com o pecuarista.
“Nada melhor do que estar a campo fazendo o atendimento de produtores e conseguindo trazer para eles informações técnicas, informações relacionadas às práticas de sustentabilidade na pecuária e que venham a conversar com a produtividade”, detalha Costa.
É assistência técnica de verdade, com a botina no barro, propriedade por propriedade.
E, para Paulo Costa, estar presente também significa compreender que cada realidade tem seus próprios limites e oportunidades.
“A satisfação está em contribuir para uma pecuária cada vez mais sustentável junto com os pecuaristas, entendendo na prática os desafios e respeitando as limitações de cada produtor”, afirma.
A força do Valorizar para Transformar que uniu a comunidade
Chegar até o produtor paraense pediu, antes de tudo, respeito e proximidade. Elyara Ramos, especialista em sustentabilidade da Produzindo Certo, conta como esse caminho foi construído:
“No início foi muito desafiador entrar na mente do produtor e conseguir mostrar pra ele como é importante eles receberem uma assistência voltada para a gestão socioambiental.”
Paulo Costa aponta que o primeiro passo foi, literalmente, conseguir entrar nas propriedades. “Ganhar a confiança do produtor para realizar o diagnóstico socioambiental e produtivo foi o principal desafio”, resume.
A aproximação, segundo ele, começou antes mesmo das visitas às fazendas.
A relação construída com parceiros locais ajudou a abrir canais de diálogo com sindicatos, associações de criadores e lideranças. Essa conexão também aproximou a equipe dos produtores em feiras e eventos de pecuária no Pará.
O trabalho engrenou quando a equipe se aproximou de um problema que já preocupava a região de perto: o fogo.
Um estudo conduzido dentro da Aliança da Terra ajudou a mapear os pontos mais sensíveis do território, e foi esse cuidado direto com a terra que aproximou produtor e equipe técnica.
Caroline Nóbrega, diretora-geral da Aliança da Terra, conta como a iniciativa mudou a realidade local: “No último ano, fizemos um trabalho prático de manejo de fogo em Paragominas (PA), uma região que sempre sofreu com queimadas. O resultado foi positivo e uniu todo mundo: pequenos, médios e grandes produtores”.
Entre 2024 e 2025, a área queimada caiu 89,6% na área monitorada pelo projeto, e mais de 90 produtores receberam treinamento para formar brigadas de combate a incêndio.
Para quem vive essa realidade todos os dias, o resultado se traduz em algo simples de sentir: a lavoura protegida. José Medeiros, produtor rural da região, resume com as próprias palavras:
“Apoio muito esse projeto do combate ao fogo, porque os meninos vieram combater duas vezes aqui. Não deixaram entrar pro meu cacoal, porque se bater fogo aí dentro da produção, queima tudo.”
Dos dados no campo ao plano de ação
Além do combate ao fogo, que uniu equipe e produtores, a Produzindo Certo trabalhou firme na parte técnica do projeto.
Luiza Marques, coordenadora de projetos, conta a rotina: “Pegamos as informações do campo e jogamos na plataforma. A partir daí, geramos um diagnóstico completo e um plano prático para o pecuarista ver os pontos de melhoria e as adequações da fazenda.”
A atuação na região começou em 2024, com a estruturação da estratégia junto aos parceiros locais. Desde então, técnicos dedicados percorrem as propriedades, fazem visitas, coletam informações e compartilham orientações com os pecuaristas.
“Estamos na região desde o início do projeto, indo de fazenda em fazenda para realizar visitas, coletar informações e entregar valor aos pecuaristas paraenses”, explica Paulo.
Até o momento, são 285.635 hectares mapeados, incluindo 169.054 hectares de vegetação nativa e 24.428 hectares de Área de Preservação Permanente (APP) conservados.
A engenheira agrônoma Érica David, do Cinpec, destaca o valor dessa parceria na lida diária: “Para nós, que queremos uma pecuária intensiva, toda melhoria é bem-vinda. A Produzindo Certo trouxe um conhecimento que não tínhamos para começarmos a executar as mudanças.”
Um financiamento que chega onde mais importa
Paulo Costa lembra de um detalhe importante: o financiamento do Bezos Earth Fund permitiu levar assistência técnica especializada a propriedades que nem sempre dispõem de recursos para contratar esse tipo de serviço, contribuindo para ampliar o acesso ao conhecimento e às ferramentas de gestão socioambiental.
Segundo ele, o grande mérito da Bezos Earth Fund foi olhar para o Brasil e entender que o impacto precisa chegar direto na base produtiva.
Mas o trabalho não para por aí. Para Andy Jarvis, o futuro é gerar mais dinheiro na mão do produtor. “O mercado de carbono pode ser uma nova fonte de renda para quem trabalha de forma sustentável”, explica.
Para o pecuarista Antônio Elias, o incentivo fala por si só: “O retorno que é bom para o bolso da gente, aí que a gente gosta mesmo.”
Paragominas mira o carbono zero
O impacto do projeto já aparece em metas maiores. Maxiely Scaramussa, pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Paragominas, conta que o município tem um projeto para se tornar zero carbono e vê o trabalho já realizado como parte importante desse caminho.
“Esse foi um grande passo para que a gente continue alcançando as metas. A gente passou uma fase e foi um ganho muito grande social, humano, ambiental, e a gente precisa continuar crescendo.”
Maria Oenice Xavier detalha o sentimento mais bonito que o projeto despertou entre os produtores paraenses:
“Eu sempre digo que a Produzindo Certo chegou na hora certa. E eu vejo que a cada dia que a gente abre as portas e recebe as instituições para nos ajudar a trazer conhecimento, nós só temos a crescer e ganhar.”
Ela já projeta o futuro com confiança: “Daqui a três anos, quando vocês um dia voltarem aqui, cada um vai estar aqui para levar vocês nos nossos lotes e mostrar como está o nosso gado, nossa produção, nossa colheita. É isso que eu espero!”
Na visão de Paulo Costa, entender a realidade das fazendas nessa primeira etapa ajuda a clarear o que vem pela frente.
A ideia é que a próxima fase avance com melhorias na prática: produzir mais e melhor na mesma área e adotar um manejo que ajude no sequestro de carbono.
Afinal, o nome do projeto já diz tudo: antes de exigir qualquer mudança, é preciso valorizar o homem do campo. Só assim o trabalho ganha força para transformar.
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