O El Niño e a economia da resiliência - Produzindo Certo
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O El Niño e a economia da resiliência

Por enquanto, há previsões e incertezas. A formação de um novo El Niño, fenômeno climático provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico foi oficialmente confirmada pelo NOOA, a agência meteorológica dos Estados Unidos, com a indicação de que seus efeitos serão históricos. Segundo a instituição, há 63% de probabilidades de que tenhamos um Super El Niño, com eventos extremos que o configurem como o mais intenso desde o início dos seus registros climáticos, nos anos 1950.

O alerta foi disparado. A ciência meteorológica estabeleceu os padrões mais prováveis de ocorrência de chuvas mais intensas ou estiagens severas em determinadas regiões e a perspectiva de que isso aconteça já alimenta especulações de mercado.

É impossível precisar, entretanto, onde os impactos serão maiores, quem verá suas lavouras ou pastagens comprometidas. A sensação, para muitos, é de vulnerabilidade diante de uma força maior, incontrolável, da natureza. Para o agro, que durante muito tempo tem sido medido principalmente pela capacidade de produzir mais, a percepção de que produzir menos é quase inevitável transforma-se em um drama anunciado.

O El Niño, assim, torna-se o vilão do momento. Não é, no entanto, o principal desafio do setor produtivo rural. Independentemente das perdas que venha a provocar, o fenômeno não deve ser visto como um problema pontual e isolado. Ele é, sim, o retrato mais contundente da crescente exposição da produção agrícola a eventos climáticos extremos.

O El Niño não cria a vulnerabilidade. Ele a revela.

Nas últimas décadas, o agro brasileiro se tornou referência mundial em produtividade. Investimentos e avanços em tecnologia, genética, mecanização e manejo permitiram que os nossos agricultores abrissem novas fronteiras em terras antes consideradas inadequadas para cultivo e delas obtivessem ganhos impressionantes.
O foco sempre foi produzir mais por hectare, contando, para isso, com um cenário de previsibilidade climática. Os últimos anos, porém, trouxeram à tona uma nova questão: O que acontece quando o clima deixa de se comportar como esperado?

Temos convivido mal com a realidade da incerteza. As altas produtividades dos anos favoráveis têm sido, muitas vezes, insuficientes para cobrir os resultados negativos com o desempenho ruim em anos difíceis.

Produzir mais ainda deve estar no foco. Mas manter níveis razoáveis de produtividade nos momentos em que as condições climáticas se mostram implacáveis precisa fazer parte da estratégia de agricultores e pecuaristas. Resiliência é o novo nome do jogo, o novo indicador a ser observado, um novo ativo econômico das propriedades rurais.

Não é difícil entender a lógica desse ativo. Um produtor resiliente é aquele que:

• Sofre menos em períodos de seca.
• Recupera-se mais rapidamente após eventos extremos.
• Tem menor volatilidade de resultados.
• Acessa melhores condições de crédito e seguro.
• Mantém sua capacidade produtiva no longo prazo.

Buscar essa resiliência é uma jornada que muitos produtores brasileiros já começaram, algumas vezes de forma ainda não sistematizada. Ela passa pela adoção de técnicas hoje embaladas com o rótulo de Agricultura Regenerativa, que devidamente aplicadas têm potencial para, de fato, capacitar os sistemas produtivos a produzir de forma mais eficiente nas safras de clima favorável, assim como mitigar efeitos de fenômenos extremos em situações como agora se vislumbra com o El Niño.

Essas técnicas trazem benefícios em vários aspectos hoje valorizados nos campos agronômico, econômico e ambiental, que, em muitos casos, se refletem em melhores avaliações dos mercados, seja de empresas compradoras, seja de instituições financeiras na concessão de crédito ou na mensuração dos custos de seguros.
Participar de programas de agricultura regenerativa já permite, por exemplo, receber prêmios na venda de sua produção ou contratar seguros em condições especiais, como acontece com os produtores ligados ao Reg.IA, consórcio desenvolvido pela Produzindo Certo que ao longo de sua trajetória tem reunido grupos econômicos como Agrivalle, Bayer, BrasilSeg, BRF, GAPES, InPlanet, Milhão Ingredients, Mina Mercantil e Proforest.

Criado em 2024, o consórcio registrou, em sua primeira safra, uma produtividade média de 67,85 sacas de soja por hectare nas áreas em que foi implantado. O resultado foi 500 kg/ha superior à média nacional, com uma pegada de carbono na produção três vezes menor que a média.
Como o próprio nome diz, esse processo regenera as condições de solo, fazendo com que ele apresente uma composição com mais matéria orgânica e uma melhor infiltração e retenção de água, o que o torna menos vulnerável à seca, por exemplo.

Com maior biodiversidade presente no ambiente, a agricultura regenerativa promove a construção de sistemas mais equilibrados, com menor dependência de intervenções corretivas. A presença de vegetação nativa no entorno das lavouras ajuda na regulação hídrica e na redução de extremos microclimáticos.
Outro benefício do consórcio é que, com o apoio das ferramentas disponibilizadas, toda a gestão é baseada em dados, favorecendo o monitoramento climático, a antecipação a riscos e a elaboração de um planejamento mais eficiente.

O alerta do El Niño traz, a despeito dos riscos, uma mensagem para que o setor, como um todo, desperte para a transformação que está em curso. Historicamente, o mercado remunera volume e produtividade, mas caminha para uma nova realidade que pode ser definida como a da economia da resiliência.
Cada vez mais, os diversos elos das cadeias do agro têm sido estimulados a reconhecer o valor intrínseco de propriedades que adotam estratégias de redução de risco, estabilidade produtiva, conservação de recursos naturais e capacidade de adaptação climática.

É uma corrente que pode ter impactos significativos inclusive no mercado de terras, a partir de uma pergunta que começará a ser ouvida com maior frequência: Se uma propriedade é capaz de produzir com mais estabilidade em um ambiente de maior risco climático, ela não deveria valer mais?

Em um mundo de extremos climáticos cada vez mais presentes, produtividade continua sendo importante. Mas resiliência passa a ser indispensável.