
Tem gente que descobre a vocação dentro de uma sala de aula. Natasha Sales descobriu a dela colada na janela de um carro, observando o Cerrado mudar.
Ela nasceu em Goiânia, mas cresceu em Senador Canedo, cidade vizinha à capital goiana. Como os pais trabalhavam em Goiânia e ela estudava lá, a rotina incluía um trajeto diário entre as duas cidades – e por muitos anos esse caminho era marcado por áreas nativas de Cerrado.
“A minha grande diversão na infância era ficar colada na janela do carro observando a mudança da paisagem. Eu achava fascinante ver as árvores retorcidas do Cerrado irem sumindo aos poucos e, de repente, a capital surgir, tão diferente de onde eu morava”, recorda.
Naquela criança curiosa que mapeava o território pela janela já estava a geógrafa que ela se tornaria anos depois. “Olhando para trás, vejo que a minha paixão pela Geografia e pelo monitoramento ambiental começou ali, naquele trajeto diário, observando a transformação do espaço e a relação entre o homem e a natureza.”
A herança do avô agricultor
O Cerrado foi o primeiro mapa de Natasha e a semente que o seu avô plantou foi o que fez esse mapa ganhar significado.
Ela vem de uma família criativa e trabalhadora, onde cada um construiu seu caminho com as próprias mãos. A mãe é cabeleireira, o pai é serralheiro, a irmã seguiu a arte como tatuadora. Ninguém, à primeira vista, trabalhava com meio ambiente, mas a raiz estava lá.
“Essa semente foi plantada pelo meu avô. Ele era agricultor familiar e, mesmo sem as nomenclaturas técnicas que uso hoje, já aplicava práticas sustentáveis na pequena propriedade dele.”
Nos almoços de fim de ano, era ele quem trazia os alimentos da própria terra para a mesa da família. Sem perceber, ensinava sustentabilidade mesmo sem um diploma.
“Essa ligação dele com a terra certamente foi o meu maior espelho e inspiração”, diz Natasha.
A geógrafa e a paixão pelos mapas
Na universidade, Natasha encontrou o caminho que reunia tudo aquilo que ela já gostava desde criança. “Desde a graduação eu sou muito apaixonada por mapas”, conta. A formação em Geografia a aproximou do geoprocessamento – a leitura do território por meio de dados e imagens. Foi por esse caminho que ela chegou até a Produzindo Certo.
O momento era delicado: ela ainda estava na reta final da graduação, sem diploma em mãos, quando soube das oportunidades. “Como já conhecia a empresa pelo site e por meio de conhecidos que prestavam serviços aqui, sempre admirei a forma como o compromisso com a sustentabilidade era tratado de maneira tão séria.”
“Foi uma oportunidade incrível, exatamente o que eu precisava ao sair da faculdade.”
Natasha chegou para prestar serviços com relatórios de sustentabilidade voltados para a cultura do tabaco. Com o tempo, o escopo foi crescendo: soja, pecuária, bem-estar animal. Cada protocolo novo pedia uma camada diferente de conhecimento e um olhar mais atento ao que os dados dizem e às vezes escondem.
Entre todos os protocolos que já trabalhou, os de pecuária têm um lugar especial para ela. “Esses de pecuária, apesar de trabalhosos, são os que gosto mais.”
Talvez porque peçam o que ela aprendeu a fazer desde pequena: ler o território e enxergar o que está além da superfície dos dados.
Um campo que nunca para quieto
Se tem uma frase que resume o que Natasha aprendeu na Produzindo Certo, é esta: “O aprendizado mais valioso foi entender, na prática, que a sustentabilidade é um campo vivo e em constante evolução.”
Dominar as normas de hoje não é suficiente. É preciso ter visão ampla para acompanhar o que muda e entender o impacto que o trabalho gera lá na porteira, junto ao produtor.
Esse ritmo acelerado de mudanças é, ao mesmo tempo, o maior desafio e o que mantém o trabalho interessante.
“O maior desafio é que a sustentabilidade não é uma regra estática ou engessada, ela evolui com o mundo. Na Produzindo Certo, existe um compromisso com a excelência técnica que exige que estejamos constantemente sintonizados com as novas normas, tendências e discussões que acontecem tanto no Brasil quanto no exterior”, explica.
Manter-se atualizada é uma escolha diária.

A vida de Natasha além dos mapas e relatórios de sustentabilidade
Natasha, aos 27 anos, é uma pessoa de poucas palavras e muito humor. Define a própria personalidade como “uma mistura de descontração e calmaria”. Reservada, bem-humorada, aberta ao mundo e genuinamente curiosa. “Amo a energia de conhecer pessoas novas e descobrir novos lugares”, diz.
Fora do trabalho, ela divide o tempo entre viagens, museus, filmes de ficção científica e suspense e noites de divertimento com os amigos. “Para animar a rotina e espairecer, gosto de ir a rodas de samba com os amigos. É onde eu realmente relaxo e renovo as energias para a semana.”
O sonho de longo prazo também diz muito sobre quem ela é: “Quero ter uma chácara pequena, morar no meio do mato bem conectada com a natureza e cercada por muitos gatos. Para mim, esse é o verdadeiro sinônimo de qualidade de vida.”
É a menina encantada com as árvores retorcidas do Cerrado, só que agora, em vez de olhar pela janela do carro, ela quer viver no meio delas.

O conselho que carrega
Para quem quer seguir o mesmo caminho, Natasha tem uma dica, vinda de quem entrou na área sem diploma na mão e aprendeu na prática: “Nunca pare de estudar e cultive uma curiosidade genuína. A área ambiental e de sustentabilidade exige que você seja um eterno aprendiz, pois as legislações, tecnologias e demandas mudam muito rápido.”
Natasha ainda conclui: “Além disso, tenha resiliência e empatia, porque lidar com o campo e com o meio ambiente é um exercício diário de equilibrar técnica, diálogo e paciência.”
Palavras de quem entendeu, ainda menina, que a paisagem muda e que vale a pena prestar atenção nessa mudança.