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COP 26: O agro responsável na ONU

No intervalo de três meses, dirigentes de todo o mundo se reuniram em três conferências que falam diretamente com a agropecuária brasileira. O que podemos extrair de encontros como a COP 26?

Pressão ou oportunidades? Há bastante de cada uma delas na mesa para o agronegócio brasileiro quando dirigentes de todo o mundo se reúnem para discutir questões relacionadas à produção de alimentos, biodiversidade e os desafios ambientais e climáticos. Nos últimos três meses, isso aconteceu, em escala global, pelo menos três vezes. Nova York (EUA), Kunming (China) e Glasgow (Escócia) são os palcos. Grandes conferências patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) mobilizaram governos, entidades e empresas de todos os países, para discussões que, em muitos casos, vão bater diretamente na porteira de nossas fazendas.

Sempre que um encontro desses acontece, é de se esperar que o Brasil ocupe papel de protagonista. Tem sido assim desde o primeiro evento desse tipo, a Rio 92, e posteriormente em todas as conferências que a sucederam — a COP 26, que acontece na próxima semana, faz parte dessa linhagem. Temos peso nas discussões porque somos grandes em biodiversidade, em áreas preservadas e em produção de alimentos, fibras e energia – e sabemos como tudo isso está interligado. A maneira como o País se posiciona em questões ambientais pode abrir ou fechar portas nas relações internacionais, sobretudo as comerciais. Pressões e oportunidades fazem parte desse universo e saber atuar nesse tabuleiro complexo é fundamental.

O agronegócio responsável, que dialoga e contribui na formulação e na execução de políticas socioambientais modernas, é um argumento poderoso nessas ocasiões. Às vésperas da COP 26, a mais importante entre as grandes cúpulas do ano, o governo brasileiro anunciou uma versão turbinada do Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC+), numa tentativa de compensar a falta de uma proposta mais ousada para antecipar o cumprimento das metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. São medidas bem-vindas para o campo brasileiro. Serão suficientes para aplacar a pressão internacional?

Entender esse xadrez, que mistura boas intenções e interesses comerciais pesados, é fundamental para quem atua na fronteira agroambiental. O momento é particularmente complexo. Aliados históricos, Estados Unidos e Europa divergem frontalmente na diplomacia da comida, propondo modelos diferentes para o futuro da produção agropecuária. Com menos terra e mais pressão de ambientalistas, os europeus propõem eliminar totalmente o uso de pesticidas até 2030 e estimular a produção orgânica em até um quarto das suas terras aráveis. O departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) afirma que isso seria uma ameaça à segurança alimentar, reduzindo a produtividade em 11% e aumentando em média 89% o preço dos alimentos.

Longe de consensos, as reuniões são fundamentais para que se busque aproximações e se avance em tudo o que é possível. Na Produzindo Certo, costumamos pregar a melhoria contínua aos produtores cadastrados em nossa plataforma. Se não podemos dar todos os passos de uma vez, que caminhemos devagar, mas sempre, para a frente.

Para ajudar na compreensão desse esforço internacional, segue um resumo das três conferências e sua implicação para o agronegócio brasileiro.

(Foto: Wenderson Araujo/Trilux/CNA/Senar)

Cúpula dos Sistemas Alimentares

Nova York – Setembro de 2021

Objetivo: Primeira do gênero, visava discutir a criação de um novo modelo de produção de alimentos, capaz de garantir a erradicação da fome em todo o mundo, sem abrir mão da prosperidade dos agricultores e pecuaristas e da preservação do meio ambiente.

Pressão: Grandes corporações foram chamadas a dar maior contribuição não apenas ao crescimento da produção, mas à sua distribuição e à inclusão de modelos produtivos regionais e de subsistência em harmonia com a natureza.

Oportunidade: O setor pode ganhar buscando formas de melhorar o acesso aos alimentos e reduzir o desperdício. A ideia básica é: há muito alimento disponível, não precisa haver fome. É hora de transformar as cadeias de fornecimento, tornando-as mais sustentáveis.

Na abertura, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou o desafio: “Precisamos de sistemas que possam levar à prosperidade – não apenas para os negócios e seus acionistas, mas para os produtores e trabalhadores da área de alimentos e, certamente, para os bilhões de pessoas em todo o mundo que dependem dessa indústria para a sua existência”.

Primeira cúpula do gênero na história, o encontro foi marcado pela ambição e também por boicotes de grupos de cientistas, ambientalistas e comunidades indígenas americanas que haviam sido convidadas a participar. Mas desistiram por considerar que havia um desequilíbrio de forças com representantes de grupos econômicos e corporações agroindustriais.

Quem viu o copo meio cheio entendeu que esse é o primeiro passo no sentido de aproximar governos e iniciativa privada, grandes e pequenos produtores, em torno de temas complexos do atual sistema alimentar global, como o acesso universal à comida e o combate ao desperdício.

Observador atento desses temas, o ex-presidente da Embrapa, Maurício Lopes resumiu em um artigo:

“Como o acesso ao alimento está na base da estabilidade e da paz no mundo, é essencial que os governos deem atenção equilibrada à agricultura empresarial e ao agronegócio gerador de riquezas, à agricultura de menor escala que garante capilaridade à produção e à distribuição de alimentos, aos estoques reguladores e a políticas e programas de segurança alimentar centrados nas populações mais pobres e vulneráveis.”

Cúpula da Biodiversidade (COP 15)

Kunming (China) – Outubro 2021

Objetivo: Encaminhar a criação de metas de proteção da biodiversidade, com a adoção de um marco com 21  pontos, a serem viabilizados até 2030 e implementados pelos países antes de 2050. Um deles é a ampliação das áreas terrestres e marítimas protegidas de 17% para 30% do planeta.

Pressão: Países como Brasil e Rússia não aceitaram a ideia de assumir compromissos em torno do tema e foram criticados. A comercialização de produtos agrícolas foi apontada como a razão dessa recusa.

Oportunidade: Estava na mesa, e não foi viabilizada, a criação de um modelo de financiamento internacional de projetos de proteção da biodiversidade, que poderia beneficiar grandes áreas do Brasil, gerando negócios relacionados a nosso potencial bioeconômico. O valor proposto é de US$ 100 bilhões. A fase final da COP 15 acontece em abril de 2022.

Espremida entre outros eventos relevantes – sobretudo por acontecer apenas duas semanas antes da COP 26 – e enfraquecida pelas restrições ainda provocadas pela pandemia de Covid-19, a reunião chinesa acabou não tendo visibilidade e impacto correspondentes à sua importância. A pretensão de firmar um pacto pela proteção de cerca de 1 milhão de espécies de plantas e animais ameaçadas de extinção fracassou, pelo menos temporariamente – a etapa final da cúpula ficou marcada para 2022.

Também ficaram adiadas discussões em torno de temas de grande interesse do agronegócio, como a proposta de redução pela metade do uso de fertilizantes e o corte de até US$ 500 bilhões em subsídios considerados prejudiciais ao meio ambiente, em grande parte concedidos por países desenvolvidos a produtores agrícolas.

Havia, finalmente, muita expectativa também em torno da criação de mecanismos que viessem a financiar ações de proteção à biodiversidade. Falava-se em até US$ 100 bilhões comprometidos nesse sentido. Sem consenso, também não avançou. Para muitos, por conta da posição contrária do Brasil e da Rússia em assumir compromissos.

“O Brasil e outros países têm receio que, ao se fixarem objetivos, algum comprador possa dizer ao país que está vendendo soja, ou outras commodities, que estão significando a destruição da sua floresta. Então eles preferirão comprar de outro fornecedor que poderá garantir que o que estão comprando não está destruindo um recurso, que é global”, afirmou Oliver Hillel, coordenador de programas da convenção da ONU para a biodiversidade, em reportagem da Folha de S. Paulo.

Cúpula do Clima (COP 26)

Glasgow (Escócia) – 31 de outubro a 12 de novembro de 2021

Objetivo:

Sensibilizar governantes e empresas de todo o mundo em torno de seis pontos principais:

– Criação de um mercado global de carbono

– Impulsionar investimentos em energias renováveis

– Ampliar a colaboração público-privada em ações de descarbonização

– Expandir a adoção de veículos elétricos

– Reduzir dramaticamente a dependência do carvão

– Eliminar o desmatamento ilegal, aumentando a proteção de ecossistemas

Pressão: O Brasil é pressionado a apresentar metas mais ousadas de contenção do desmatamento e redução de emissões. Boa parte dessa pressão recai sobre a produção agropecuária.

Oportunidade: Agricultores e pecuaristas brasileiros podem ganhar uma nova fonte de renda com o mercado de carbono e benefícios com a negociação de incentivos para a preservação de florestas.

Os olhos agora, estão voltados para a Escócia. No próximo domingo, a abertura da COP 26 já apontará se teremos capacidade de superar as divergências em torno de um mínimo de avanços. O próprio Brasil vai dividido. A delegação oficial leva propostas tímidas. Comitivas paralelas, sobretudo do setor privado, carregam ambições relevantes. Enquanto o governo se ancora no Plano ABC+, com a contribuição de cortes de emissões e sequestro de carbono por parte do setor agropecuário, grupos de empresários defendem que o país seja mais efetivo no discurso e nas ações de proteção ambiental e também leve uma proposta concreta para a regulação, em nível nacional, do mercado de carbono. Atualmente, existem apenas iniciativas isoladas nesse sentido.

Reside aí, para muitos, a grande oportunidade da COP 26, sobretudo aos olhos do agronegócio. André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa da Ambiental da Amazônia e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, afirma que, “apesar do desmatamento que já enfrentamos, a gente ainda tem os ativos, como a Amazônia e o Cerrado”. E apresenta, em números, o potencial desse mercado para os produtores que preservam a floresta. “Um hectare na Amazônia tem 400 toneladas de CO2 equivalente. A US$ 100 a tonelada, você tem US$ 4.000 por hectare em crédito de carbono, enquanto a pecuária remunera no máximo US$ 100”, afirma.

Quando a conta da conservação for efetivamente positiva, deixar a floresta em pé será, majoritariamente, a primeira opção dos proprietários de terra. A percepção de que o agronegócio responsável traz benefícios está crescendo e ficará ainda maior. Precisamos mostrar isso ao mundo. Cada cúpula é uma boa chance e não podemos desperdiçá-las.

Data de publicação: 29/10/2021