A retomada verde

Estudo mostra por que o agronegócio responsável é estratégico para a recuperação sustentável da economia brasileira

Gado criado em sistema ILPF (Foto: Sistema CNA/Tony Oliveira)

Investimentos em práticas de integração lavoura-pecuária-floresta, aumento de produtividade, uso mais eficiente da terra, além da redução de desmatamento de novas áreas e recuperação de pastagens degradadas são temas cada vez mais presentes no campo. Um estudo recente confirma, agora, que essas soluções do agro podem e devem ser aproveitadas para uma retomada mais sustentável da economia brasileira.

A conclusão está no estudo Uma nova economia para uma nova era, lançado em agosto por um conjunto de organizações coordenado pelo WRI Brasil (vinculado ao World Resources Institute) e pela iniciativa New Climate Economy. A publicação propõe medidas em três setores estratégicos que podem tornar o Brasil menos desigual, mais competitivo e com um sistema produtivo livre de desmatamento: infraestrutura de qualidade, inovação industrial e agricultura sustentável.

Por meio de modelagens econômicas, os pesquisadores comparam o cenário tradicional de negócios a outros dois baseados em uma nova economia para 2030: de manutenção do atual volume de produção agropecuária, com redução de área cultivada, recuperação de áreas degradadas e redução do ritmo do desmatamento (cenário 1); e de aumento da produção de carne e grãos, uso de parte das terras recuperadas para a atividade rural e também menor pressão sobre o desmatamento (cenário 2). Nos dois cenários alternativos, o retorno econômico estimado é maior do que o que será alcançado se seguirmos o modelo tradicional, também conhecido como Business as Usual (BAU). 

Práticas sustentáveis e de baixo carbono aplicadas aos três setores mencionados podem resultar em um ganho adicional de R$ 2,8 trilhões ao PIB nos próximos dez anos, gerar 2 milhões de empregos e reduzir em 42% as emissões de gases de efeito estufa já em 2025 (em relação a 2005). Para o setor agrícola, a adoção das recomendações do estudo baseado, principalmente, na intensificação da produção, pode gerar até R$ 19 bilhões a mais em produtividade até 2030, ao mesmo tempo em que permite restaurar 12 milhões de hectares de pastagens.

Embora expressivos, os números não implicam em alterações radicais na gestão ou inovações disruptivas no campo. Ao contrário, demonstra que soluções tecnológicas já existentes junto com a interligação de políticas e programas em vigor são o caminho para um modelo de crescimento econômico mais seguro, próspero, inclusivo e resiliente. 

A força do agro

Hoje, um em cada três empregos são gerados no campo e a atividade agropecuária responde por 22% do PIB nacional. Os pesquisadores reconhecem que o setor é responsável por práticas modernas, que avança na adoção de ferramentas tecnológicas e tem potencial para liderar globalmente a agenda de uma agricultura mais sustentável. “O Brasil tem uma vantagem natural que lhe permite aumentar a competitividade dos setores agropecuário e florestal, conservando e restaurando seus ecossistemas e recursos naturais sem sacrifícios sociais ou econômicos”, anunciam.

Para isso, precisa dar conta de desafios como aumentar a produtividade agrícola, dar escala e disseminar conhecimento sobre meios de produção mais eficientes e superar os questionamentos externos que vinculam a imagem do agronegócio ao desmatamento ilegal no Cerrado e na Amazônia (sobre o desmatamento e os resultados positivos alcançados por fazendas monitoradas pela Produzindo Certo, leia essa matéria do blog).

Entre as medidas propostas pelos pesquisadores está a capacitação de quem trabalha a terra – 85% dos estabelecimentos rurais no Brasil não contam com nenhuma assistência técnica e extensão rural. Levar conhecimento para o campo é essencial para aumentar a recuperação de pastagem degradadas e ampliar a produtividade e a lucratividade dos sistemas integrados de produção (lavoura-pecuária-floresta), por exemplo. 

A necessidade de orientação e formação dos trabalhadores rurais também é percebida por quem atua na avaliação e monitoramento socioambiental das fazendas. Por isso, a assistência técnica é um eixo fundamental do trabalho da equipe da Produzindo Certo. “Vemos isso no dia a dia no campo. A gente entende que a transformação só virá com o apoio para que produtor rural se desenvolva. Isso é muito mais valioso do que simplesmente excluir agricultores das plataformas de fornecimento das principais empresas do agronegócio”, afirma Aline Locks, CEO da Produzindo Certo.

Quem paga a conta do benefício ambiental?

O papel dos incentivos econômicos na melhoria da produtividade agropecuária é outro ponto destacado. É necessário aumentar significativamente os investimentos para escalar a disseminação de técnicas de intensificação e aprimoramento produtivo e de tecnologias de baixo carbono.

O condicionamento do crédito rural ao desempenho ambiental dos estabelecimentos agrícolas, criando estímulos para quem produz impactos positivos, e a compatibilização de instrumentos tributários com os objetivos da legislação ambiental são algumas medidas apontadas. Hoje, os incentivos econômicos ainda são muito pequenos. Iniciativas como o Plano ABC, de financiamento a baixo custo a agricultores interessados na adoção de projetos de agricultura sustentável, contam com o equivalente a menos de 0,5% do orçamento do Plano Safra, que foi de R$ 225,59 bilhões em 2019/2020.

Outros instrumentos, como a atração de investimento privado internacional e a emissão de títulos verdes (green bonds) a partir de um desempenho mais eficiente e de menor impacto socioambiental, também são oportunidades para ampliar os recursos e financiar essa transformação.  

Embasam todas essas opções a convicção de que o aumento da produtividade beneficiará a conservação ambiental, e esse processo é cíclico e interdependente. Por isso as soluções também devem ser integradas. 

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