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O olho do dono preserva as florestas

Propriedades monitoradas pela Produzindo Certo apresentam índices de desmatamento de florestas três vezes menor que a média na Amazônia Legal

Quem utiliza a Plataforma Produzindo Certo tem nas mãos um recurso que emite alertas caso alguma das propriedades associadas registre qualquer caso de desmatamento. Literalmente. Um sistema que pode ser consultado via web, celular e tablets acompanha pelo menos 70 indicadores socioambientais, entre eles focos de calor e monitoramento de desmatamento.

Isso é possível porque a plataforma está integrada aos dois principais sistemas de alerta e detecção de desmatamento do país: o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que anualmente consolida e divulga as informações de desmatamento no país, sendo o principal órgão oficial; e o MapBiomasAlerta, um sistema lançado no ano passado que consolida todos os meses as informações de uma série de sistemas de alertas de desmatamento de órgãos oficiais de controle, como o próprio INPE, Ibama, Ministério do Meio Ambiente, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Ministério Público Federal, como também centros de pesquisa e organizações não-governamentais: Universidade de Maryland, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e Instituto Socioambiental (ISA).

Se o alerta ‘toca’ alguma propriedade monitorada, os especialistas da Produzindo Certo analisam as informações para confirmar os dados e acionam o produtor rural para verificar se há autorização para a supressão vegetal em florestas. Em casos de desmatamento sem licença, os proprietários rurais são excluídos da plataforma.

Vigilância permanente, apoio ao produtor, assistência técnica, conscientização e aplicação de boas práticas socioambientais dão resultado: índices de desmatamento e de focos de incêndio bem inferiores à média de outras propriedades. Levantamento feito pela Produzindo Certo, com base em dados do INPE, nas fazendas cadastradas na plataforma e localizadas na Amazônia Legal aponta que há 3,2 vezes menos ocorrências de desmatamento se comparadas às demais áreas na mesma região. “Deixar essas fazendas preparadas e trabalhar na prevenção têm demonstrado resultados”, avalia Charton Jahn Locks, diretor de Operações (COO) da Produzindo Certo.

Tecnologia e produtividade

A tecnologia cada vez mais ajuda o agronegócio a garantir transparência e comprovar que suas cadeias produtivas não estão vinculadas ao desmatamento ilegal. Em meio ao crescimento dos incêndios florestais em regiões da Amazônia e do Cerrado que afeta a imagem do agro, os mecanismos de monitoramento ganham ainda mais relevância.

Mas vale lembrar: muito mais do que uma prática meramente expansionista, foi do aumento de produtividade que veio a maior fatia do crescimento do agronegócio brasileiro. O Brasil já obteve sucesso em combater o desmatamento ilegal na Amazônia no passado. Entre 2005 e 2012, a supressão vegetal caiu mais de 75% enquanto houve grande crescimento da produção nacional de alimentos. A safra de grãos cresceu 45% nesses sete anos, chegando a 166 milhões de toneladas. Mesmo ritmo de avanço foi registrado nos sete anos seguintes e o ano de 2019 se encerrou com um volume de 242 milhões de toneladas de grãos produzidos em todo o Brasil.

Nesse período, os sistemas de controle foram aprimorados com monitoramento por satélite, fiscalização e ações de inteligência para combater crimes. Também foi importante para esse resultado o engajamento do setor produtivo, que tem se comprometido cada vez mais em não adquirir grãos ou carne provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.

“Se você analisar todo o desmate de 2012 até 2020 na Amazônia Legal, estamos falando de um aumento inferior a 2% da área produtiva do Brasil. A maior parte do agro é muito sério e produz com muita responsabilidade. Temos uma ocupação ilegal de terra e desmatamento em área de fronteira, em grande parte, não feito por produtores rurais, mas por especuladores imobiliários”, analisa Charton Locks. 

Desafios na preservação de florestas

Ainda há desafios a serem superados, como mudar a mentalidade de produtores rurais não alinhados às diretrizes da agricultura responsável, ampliar o investimento em tecnologia e em boas práticas agrícolas. Mas o país tem grande potencial em conciliar o crescimento agrícola com a conservação dos recursos naturais. A intensificação das pastagens, o sistema de produção integrada lavoura-pecuária-floresta, o Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), as tecnologias de sensoriamento remoto, o código florestal e o CAR, para citar apenas alguns instrumentos para multiplicar a produtividade ano a ano. A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Tereza Cristina confirmou que o país não precisa da Amazônia para avançar sua produção. Segundo ela, em 40 anos, a área plantada cresceu 32% enquanto a produtividade avançou 385%.

Apesar de ter sido recebida com certa polêmica por uma parte dos representantes do agronegócio, uma pesquisa da UFMG publicada em julho na revista Science apontou indícios de que parte da soja e da carne exportadas pelo Brasil podem vir de áreas de desmate ilegal. A análise faz questão de ressaltar, porém, que a maior parte da produção agropecuária brasileira não está associada ao desmatamento, fato que inspirou o título do trabalho: The rotten apples of Brazil’s agribusiness (As maçãs podres do agronegócio brasileiro, em tradução livre). O documento apontou que apenas 2% das propriedades analisadas concentram quase dois terços de todo o desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado. Outra publicação, o Relatório do Desmatamento 2019, do MapBiomas, apontou que somente 0,7% das 5,6 milhões de propriedades rurais com Cadastro Ambiental Rural (CAR) registraram alertas de desmate de florestas no ano passado.

Todos esses registros ajudam a demonstrar que é falso o dilema entre conservação e produção de alimentos – e que o agronegócio está mais moderno, estruturado e responsável.

Florestas destruídas por queimada na Amazônia

Transparência para a produção responsável

Além da tecnologia para monitoramento, faz parte da essência da Produzindo Certo, profundamente conectada com os produtores rurais, garantir acesso a conhecimento e assistência técnica que possam guiá-los para uma agricultura mais sustentável. Por meio da plataforma, os agricultores e pecuaristas têm um diagnóstico do seu desempenho socioambiental e contam com o acompanhamento contínuo das propriedades para que possam assegurar transparência a traders, exportadores e ao consumidor sobre a origem da sua produção. E também se comprometem a aprimorar a gestão continuamente.

Só a existência desse ecossistema de informação e tecnologia já resulta em uma menor abertura de novas áreas produtivas, mesmo aquelas autorizadas. Levantamento de pesquisadores da UFMG, realizado em 2016, constatou que 92% das fazendas reduziram o número de focos de calor em suas terras após a adesão à plataforma da Produzindo Certo – à época ainda parte da ong Aliança da Terra. “Esse alto índice de eficácia sugere que os proprietários de terras reduzem o uso de fogo quando eles são informados dos benefícios de incluir práticas agrícolas mais sustentáveis e são treinados para realizar a prevenção de incêndio”, detalha um trecho do artigo.

Uma vez cadastrados na Produzindo Certo, os produtores têm seu desempenho socioambiental avaliado anualmente, em uma lista com cerca de 70 indicadores, que formam seu score socioambiental. A fazenda que não apresentar evolução contínua nesses aspectos em dois anos, é excluída da plataforma. Em caso de desmatamentos ilegais detectados e comprovados, o produtor também fica fora da plataforma.

Empresas como Unilever, Bayer , Grupo Pão de Açúcar e ADMsão clientes da Produzindo Certo e utilizam essa tecnologia para verificarem suas cadeias de fornecimento de soja e carne. Com isso, foi possível aferir, por exemplo, que nenhuma propriedade fornecedora de carne para o Pão de Açúcar registrou focos de incêndio em 2019 – mesmo que muitas das fazendas estivessem localizadas próximas de áreas afetadas pelos incêndios registrados no Cerrado e na Amazônia no período. 

Charton Locks ressalta que é importante diferenciar os incêndios ilegais, que destroem áreas que deveriam ser preservadas, impactam terras indígenas e unidades de conservação, das queimadas legais e controladas feita por agricultores, indígenas e povos tradicionais com o propósito de renovar o pasto ou a área de cultivo. Essa prática tem impacto reduzido sobre o bioma e é permitida pelos órgãos reguladores. 

Funcionários de fazenda fazem aceiro para prevenção de incêndio

“Nós orientamos, do ponto de vista técnico, como preparar a fazenda para a estação de fogo, quando fazer e como se proteger. Instruímos sobre como construir aceiros, realizamos análises do histórico de focos de calor da fazenda, para que ele entende de onde costuma vir o fogo e como se proteger; a manter a infraestrutura de combate a incêndio, com tanque-pipa e trator com lâmina, sempre preparada e revisada. E também damos orientação sobre como cercar fogo, fazer contrafogo”, explica.

Considerando dados de desmatamento do Prodes, a ocorrência de indícios de desmatamento na área monitorada pela Plataforma Produzindo Certo foi 3,2 vezes menor do que o verificado nas demais áreas da Amazônia Legal, incluindo Terras Indígenas e Unidades de Conservação em 2019. Cerca de 3% das propriedades localizadas nesta região apresentaram indícios de desmatamento que estão sendo verificados pelo time de especialistas da Produzindo Certo e, se confirmados, vão ocasionar a exclusão do sistema.


Publicado em 11/08/2020.

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