
O agronegócio brasileiro inicia 2026 em um cenário de ajustes, mas também de oportunidades. Depois de um ciclo marcado por custos elevados, desafios climáticos e volatilidade internacional, as projeções indicam um ano de retomada gradual, com moderação nas margens e avanço consistente em produtividade, gestão e tecnologia.
As estimativas de safra mostram um país que mantém a capacidade produtiva elevada, mesmo diante de riscos climáticos que seguem no radar. A demanda global por alimentos deve permanecer aquecida, enquanto cadeias internas de insumos e crédito começam a se reorganizar. No entanto, o setor caminha para 2026 com a consciência de que eficiência operacional será um diferencial decisivo.
Os relatórios recentes da Conab, Rabobank e Fiesp reforçam que o novo ano tende a ser marcado por ajustes positivos. Há espaço para recuperação, mas com ritmo moderado. O Brasil mantém sua posição estratégica como líder da agropecuária tropical, impulsionando tecnologias sustentáveis que ganham força dentro e fora do país.
Em um ciclo que será marcado também pelas eleições presidenciais, o agro deve ocupar lugar central no debate político. As demandas do setor por logística, crédito, segurança jurídica e políticas de adaptação climática estarão entre os principais temas do ano eleitoral.
Safra 2025/26
A segunda estimativa para a safra de grãos 2025/26 divulgada em novembro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontou uma produção de 354,8 milhões de toneladas, o que indica estabilidade com leve tendência de alta. O resultado demonstra que, mesmo após um ciclo de adversidades climáticas, o setor mantém capacidade de resposta rápida e eficiência no manejo.
Em relação às principais culturas, a Conab destaca expectativas positivas para soja, que deve registrar aumento de 3,6% na área plantada e alcançar 177,6 milhões de toneladas. No caso do milho, a produção total, somando as três safras, está estimada em 138,8 milhões de toneladas, uma redução de 1,6% em relação ao ciclo anterior.
Os pontos de atenção recaem sobre os custos de produção, que em 2026 ainda permanecem elevados, embora com tendência de acomodação, e sobre o clima, que segue como o principal fator de risco, especialmente diante de previsões de transição entre fenômenos oceânicos que podem gerar irregularidade nas chuvas em algumas regiões.
O panorama geral da Conab aponta que 2026 será um ano de safra robusta, porém sem excessos de otimismo. O foco será manter a produtividade elevada com margens ajustadas, reforçando a importância da gestão eficiente no dia a dia das fazendas.
Mercado desafiador
As projeções do Rabobank para 2026 indicam que o agronegócio brasileiro seguirá em um ciclo de margens apertadas, com recuperação mais consistente prevista apenas para meados de 2027. Segundo o banco holandês, produtores de soja e milho vão continuar enfrentando custos elevados e volatilidade nos preços internacionais, fatores que exigem uma estratégia comercial mais cautelosa para atravessar o novo ciclo.
Para o mercado de insumos, o Rabobank destaca que as entregas de fertilizantes devem permanecer em alta em 2026, impulsionadas pela recomposição de estoques e pela necessidade de manutenção dos níveis competitivos de produtividade. Ainda assim, o setor segue atento às oscilações internacionais que impactam diretamente os custos de adubação.
Já as projeções da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para 2026 reforçam que o agronegócio brasileiro deve seguir expandindo sua presença global e mantendo um ritmo de crescimento acima da média mundial. O “Outlook Fiesp 2026 – Projeções para o Agronegócio Brasileiro” indica que o Brasil seguirá ampliando sua participação em cadeias estratégicas, impulsionado por ganhos contínuos de produtividade e pela força do modelo de agropecuária tropical.
A Fiesp estima ainda que o Brasil deve consolidar sua posição como principal player global da soja, podendo responder por cerca de 49% do mercado mundial em 2026. Esse protagonismo é resultado de avanços tecnológicos, melhoramento genético, manejo eficiente e investimentos constantes em sistemas produtivos adaptados às condições tropicais.
Tecnologia e sustentabilidade
A busca por eficiência e sustentabilidade tende a acelerar a adoção de tecnologias no campo. Softwares de gestão, sistemas de monitoramento ambiental, plataformas digitais e soluções de rastreabilidade seguem entre as principais ferramentas adotadas por produtores que desejam manter competitividade em margens apertadas.
A agropecuária tropical sustentável ganha destaque como eixo central dessa transformação. O Brasil avança como líder global na construção de um modelo produtivo adaptado às condições de clima quente, diversidade de biomas e sistemas integrados. Essa abordagem combina ciência, manejo inovador e práticas que reduzem impactos ambientais, tornando o país referência em técnicas replicáveis para outras regiões do mundo.
A tendência é que tecnologias de clima, bioinsumos, irrigação inteligente e modelos de manejo regenerativo avancem de forma acelerada. A busca por menor emissão de carbono e melhor uso de recursos naturais impulsiona programas de certificação e rastreabilidade, ampliando oportunidades de acesso a mercados internacionais mais exigentes.
O crescimento da agricultura digital deve continuar, com maior consolidação de plataformas que unem dados de clima, solo, manejo e comercialização. Em um cenário de margens mais estreitas, a tecnologia deixa de ser diferencial para se tornar aliada indispensável.
O agro nas eleições
O ano de 2026 será marcado ainda por um dos momentos políticos mais relevantes do país: as eleições presidenciais. Em um cenário de debates intensos sobre economia, desenvolvimento e sustentabilidade, o agronegócio deve ocupar posição central nas discussões. O setor, que representa parte significativa do PIB e das exportações brasileiras, tende a ser ponto estratégico na formulação de propostas e agendas públicas.
As demandas do campo devem ganhar destaque nas plataformas dos candidatos, especialmente temas relacionados à logística, segurança jurídica e políticas de adaptação climática. A melhoria da infraestrutura de transporte, a ampliação do seguro rural e a simplificação de normas ambientais e fundiárias permanecem entre as principais reivindicações dos produtores e das cadeias produtivas.
Outro eixo importante do debate eleitoral será a sustentabilidade. A pressão internacional por rastreabilidade, redução de emissões e uso eficiente dos recursos naturais exige alinhamento entre políticas públicas e práticas produtivas. A construção de programas que incentivem a adoção de tecnologias de baixo impacto, sistemas integrados e soluções regenerativas tende a ser um dos focos das discussões de 2026.
Cenário favorável
O agro entra em 2026 com margens ajustadas, custos elevados e clima desafiador, mas também com fundamentos sólidos, produtividade crescente e avanços claros em tecnologia e sustentabilidade. O cenário é de cautela, mas não de retração. É um ano que exige estratégia, gestão eficiente e atenção às oportunidades que surgem em meio aos ajustes.
Com demanda global estável, expansão do modelo tropical, reorganização dos mercados e maior presença em cadeias internacionais, o agro brasileiro segue como protagonista. O que se desenha para 2026 é um ciclo de crescimento moderado, em que eficiência e resiliência serão os pilares para transformar desafios em resultados.